As lições do First Tuesday Webworld
Maio de 2001
Ricardo P. Cesar
Julie Meyer ficou conhecida como a primeira dama da Internet por ter
ajudado a estruturar o First Tuesday, a famosa rede de relacionamento entre
empreendedores e investidores da Nova Economia que se espalhou pelos quatro
cantos do mundo, inclusive o Brasil. Mas isso já faz parte de um passado
que Julie nem sempre gosta de recordar. O sonho de transformar o evento em
uma companhia do porte de um eBay, de um Yahoo ou de uma Amazon, chegou
perto de ser concretizado, mas ruiu na última hora devido a problemas
administrativos e sérios desentendimentos entre os fundadores.
Apontada pela revista Time como uma das 25 pessoas mais influentes no
cenário tecnológico da Europa, Julie volta agora suas atenções para a
Ariadne Capital, empresa que fundou há cinco meses e que presta serviços
estratégicos para start-ups de tecnologia e investidores. Por trás do
slogan “construindo a Europa.com” está se formando uma empresa que se vale
da enorme rede de contatos formada por Julie no período em que ela ficou à
frente do First Tuesday. Até um certo ponto, a idéia não difere muito de
uma agência de encontros – mas os relacionamentos que Julie ajuda a
construir são entre investidores e empresas de tecnologia. Em seu flat em
Londres, na sala onde o First Tuesday foi criado, Julie e Bundeep Singh
Rangar, co-fundador e chefe operacional da Ariadne Capital, concederam uma
entrevista ao WebWorld e falaram sobre os novos projetos, o que deu errado
com o First Tuesday e o que uma empresa pontocom deve fazer para sobreviver
ao atual momento de consolidação do mercado.
WebWorld: Como nasceu o First Tuesday?
Julie: O First Tuesday foi fundado nesta sala quando deixei meu emprego na
New Media Investors, que era uma incubadora e uma empresa de investimentos,
no verão de 1999. Tudo começou em meio a pilhas de papéis espalhados por
aqui, como 50 mil pounds (pouco mais de R$ 150 mil) que tirei do meu
próprio bolso e que era todo o dinheiro que eu tinha. Esse foi o "capital
semente", e assim me tornei um dos quatro fundadores do que então era um
coquetel e que se tornou um bem-sucedido evento de relacionamento.
Nesse ínterim o negócio tomou corpo, mas só reconheci o valor que o First
Tuesday tinha quando meus antigos patrões na New Media tentaram
inicialmente derrubar o projeto e, depois, adquirir participação no negócio.
Isso realmente me fez acordar para o valor daquela idéia e ver que
claramente era mais do que um simples coquetel. Na época, em junho de 1999,
nosso banco de dados era de cerca de mil pessoas - o que não é muito
significativo - e decidi que deveríamos internacionalizar o conceito, fazer
o First Tuesday estar presente em lugares importantes para start-ups e
empreendedores, interligando as pessoas, o dinheiro e os recursos certos
onde quer que eles estivessem, garantindo essa interação que existe no Vale
do Silício mas que é difícil de se conseguir em um local fragmentado como a
Europa.
Em setembro de 1999, estávamos na primeira página do Wall Street Journal e
assim começou uma grande cobertura de mídia sobre o First Tuesday e fomos
procurados por investidores que olhavam para nós e viam algo parecido com o
Hotmail, ou eBay - algo que ia dar certo. E é claro que nós adoramos aquela
época, e choveram pedidos para que fôssemos para os cinco continentes.
Conseguimos 400 city leaders, cerca de 500 mil pessoas no banco de dados,
100 mil pessoas participando dos eventos todos os meses, mais de US$ 150
milhões em capital tendo sido levantado pelos empreendedores que
participavam. O impacto foi muito grande, mas o First Tuesday foi em uma
direção diferente da que eu originalmente pretendia. O evento tornou-se uma
rede de relacionamentos bem conhecida em todo o mundo, mas provavelmente
não atingiu todo o seu potencial de negócio devido a uma série de
dificuldades.
WebWorld: Que dificuldades?
Julie: Eram muitas pessoas com visões diferentes tentando liderar a
companhia. Tive problemas sobretudo para tornar os demais fundadores tão
ativamente envolvidos no negócio quanto eu estava. Os outros realmente
queriam vender o First Tuesday até perceberem que se tratava de um grande
sucesso, e então quiseram se sentar sobre suas participações, porque na
prática significava dinheiro sem fazer nada. E eu estava tentando cumprir
as promessas que havia feito para a rede de city leaders, com muitos dos
quais me relacionava pessoalmente.
Eu havia prometido transformar o First Tuesday em um negócio lucrativo e
disse que se uma pessoa fizesse dinheiro com o First Tuesday, todos fariam.
Então era muito difícil gerenciar as demandas dos fundadores que não
estavam envolvidos e a rede de pessoas que faziam os eventos e estavam de
fato criando valor. Havia uma grande diferença em ser o proprietário legal
do negócio e ser o proprietário moral. Eu tentava gerenciar as demandas dos
dois lados e, ao mesmo tempo, fechar um aporte e capitalizar a enorme
oportunidade que tínhamos.
Acredito que no outono de 1999 foi quando tivemos as melhores chances de
fechar um grande investimento, e se tivéssemos sido corretamente
capitalizados, com uma liderança forte, teríamos sido uma companhia global
de primeira classe que realmente teria dirigido a nova economia na Europa.
WebWorld: E por que isso não aconteceu? Quais foram os erros cometidos pelo
First Tuesday? E quais as lições que ficaram e que você pode usar na
Ariadne Capital?
Julie: Essa é uma questão difícil de ser respondida sem pisar no calo de
certas pessoas. Há muitas vezes na Europa a idéia que alguns executivos
sêniores devem ser colocados nas empresas de Internet pelos investidores,
já que os fundadores não têm necessariamente as qualidades necessárias para
fazer a empresa avançar. O investidor que queria fazer um aporte no First
Tuesday era o Atlas Venture, e eles queriam que contratássemos um indivíduo
em particular para ser o CEO da companhia (Julie refere-se a Reade Fahas,
que dirigiu o First Tuesday por alguns meses e gerou atrito com os
fundadores). Mesmo sem que nenhum dos fundadores achasse que ele era a
pessoa certa, nós o contratamos para o cargo. Essa pessoa não tinha as
habilidades financeiras ou conhecimento do mercado de tecnologia para
dirigir o negócio; ele tinha um cargo de diretor geral em seu currículo,
mas não sabia como dirigir um empreendimento como aquele.
Tornou-se muito desconfortável eu ter que gerenciar o CEO para preservar as
aparências de que a companhia era dirigida por alguém eficaz. Eu deveria
ter confiado em meu instinto, que sempre me disse que não se tratava da
pessoa correta, mas não soube articular as minha preocupações e externá-las
alto o bastante. Atualmente não acho que os venture capitalists que estão
sentados em bilhões de dólares são necessariamente mais espertos do que eu,
mas há dois ou três anos eu achava isso, acreditava que eles estavam certos
e que se eu não concordava eu deveria estar equivocada e não eles. O mesmo
investidor de risco, Christopher Spray, do Atlas, que nos pediu para
contratar o CEO em questão, automaticamente percebeu que o negócio não
estava sendo bem conduzido e decidiu não mais fazer o investimento - o que
é muito irônico, pois contratamos justamente a pessoa que nos foi indicada
e depois fomos punidos por algo que os próprios investidores nos pediram
para fazer.
A lição que aprendi é que você não pode terceirizar as suas decisões para
os investidores. É a sua companhia e, se você sente que não é certo, não
faça. Você terá que viver com as conseqüências, e não o investidor.
WebWorld: O que aconteceu com o First Tuesday hoje?
Julie: Continua a ocorrer como um negócio de conferências e relacionamento,
mas não é uma empresa de investimentos, não existe um banco de dados comum
em todo o mundo, não existe interoperabilidade entre as cidades como
deveria ter ocorrido. Foi vendido para a Yazam, uma empresa de
investimentos, em julho do ano passado; em seguida a Yazam implodiu o First
Tuesday e o negócio foi comprado pelos diversos city leaders.
WebWorld: Como era a sua relação com os demais city leaders quando você
dirigia o First Tuesday? Você conhecia, por exemplo, os organizadores do
evento no Brasil?
Julie: Não, não conhecia. Eu era muito próxima dos 17 primeiros city
leaders na Europa, depois começamos a pular para outras partes do mundo,
para Sidney, na Austrália, e daí para Buenos Aires, na Argentina, mas nunca
fiz uma viagem à América do Sul para o First Tuesday. Acompanhei o First
Tuesday em Miami, que deveria ter um papel importante em coordenar os
eventos na América Latina, e conheço as pessoas no México e em outros
lugares, mas não conheço as pessoas do Brasil.
WebWorld: Como os city leaders eram escolhidos?
Julie: De diversas maneiras. Mas na verdade os city leaders sempre vieram
até nós, nunca procurávamos as pessoas, nunca falamos "nós temos que estar
na China, vamos colocar um anúncio em jornal lá para arrumar alguém". As
pessoas interessadas em todos os lugares nos procuravam, nós checávamos as
referências, procurávamos saber se a pessoa tinha uma grande rede de
contatos, se tinha uma liderança em sua comunidade e se acreditava em
alguns preceitos básicos que norteavam o First Tuesday.
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